Um suposto esquema de irregularidades na Câmara Municipal de Paracambi veio a público na última semana, gerando grande repercussão entre os moradores e mobilizando as autoridades. A denúncia, protocolada no Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) no início do mês, reúne documentos que apontam superfaturamento em contratos, suspeita de funcionários fantasmas e pagamento de diárias sem comprovação. Também há registros de sessões sem a devida publicidade e possíveis direcionamentos em licitações. A seguir, os principais fatos e os passos da investigação.
O Surgimento das Denúncias
As primeiras informações surgiram em grupos de WhatsApp de moradores e foram sistematizadas por um coletivo que se autodenomina "Paracambi Contra a Corrupção". O dossiê entregue ao MPRJ contém cópias de contratos, notas fiscais suspeitas e gravações de áudio de sessões nas quais supostamente haveria manobras para aprovar projetos de interesse de determinados vereadores. Segundo o documento, os contratos firmados com empresas de assessoria e locação de veículos teriam valores muito acima dos praticados no mercado, sem a devida prestação de contas. Também há indícios de servidores comissionados que não exercem função real – os chamados funcionários fantasmas. A reportagem não teve acesso direto ao dossiê, mas confirmou sua existência com fontes próximas à investigação.
As principais irregularidades apontadas incluem:
- Superfaturamento em contratos de prestação de serviços;
- Pagamento de diárias sem comprovação de viagem ou trabalho externo;
- Contratação de empresas de fachada para assessoria jurídica e contábil;
- Funcionários comissionados que não comparecem ao trabalho;
- Falta de transparência em sessões legislativas.
Investigação em Curso
O MPRJ instaurou um inquérito civil público, que tramita em segredo de justiça. Os promotores já requisitaram à Câmara Municipal a entrega de todos os contratos, licitações e folhas de pagamento dos últimos três anos. Também foram solicitadas quebras de sigilo bancário de três vereadores e de dois servidores comissionados apontados como principais envolvidos. A Polícia Civil, por meio da 92ª Delegacia de Polícia de Paracambi, realiza diligências para ouvir testemunhas e apreender documentos complementares.
As etapas previstas da investigação:
- Coleta e análise da documentação contábil e administrativa;
- Oitiva dos denunciantes e testemunhas;
- Perícia em contratos e notas fiscais;
- Quebra de sigilo bancário e fiscal;
- Elaboração de relatório técnico e parecer ministerial.
Ao final, se confirmadas as irregularidades, o MPRJ pode oferecer uma Ação Civil Pública por Improbidade Administrativa. Caso sejam detectados crimes, como peculato ou corrupção, o Ministério Público encaminhará o caso para a esfera criminal. A expectativa é de que as primeiras conclusões saiam em 60 a 90 dias.
Reações da População e de Entidades
Moradores de Paracambi reagiram com indignação. Na última sexta-feira, cerca de 50 pessoas se reuniram em frente à Câmara Municipal, com cartazes pedindo transparência e punição dos culpados. Lideranças dos bairros Lages, Centro e Sede participaram. "Queremos que o dinheiro público seja usado em saúde e educação, não em contratos suspeitos", afirmou uma moradora. Associações de bairro e o Conselho Municipal de Transparência emitiram notas de apoio à investigação.
Nas redes sociais, as hashtags #ForaVereadoresCorruptos e #ParacambiTransparente se espalharam. O perfil oficial da Câmara no Facebook foi alvo de críticas e precisou moderar comentários. Alguns vereadores se pronunciaram individualmente em suas páginas, negando envolvimento e dizendo que as denúncias são politicamente motivadas.
Implicações Políticas e Jurídicas
As possíveis consequências jurídicas são graves. Se comprovada a improbidade administrativa (Lei nº 8.429/92), os envolvidos podem perder o cargo, ter os direitos políticos suspensos por até oito anos, pagar multa de até 24 vezes o valor do dano e devolver os recursos desviados. Na esfera criminal, podem responder por crimes como peculato (art. 312 do Código Penal) ou corrupção passiva (art. 317). A pena, nesses casos, pode chegar a 12 anos de reclusão.
Politicamente, o escândalo já enfraquece a imagem do legislativo municipal. Partidos de oposição articulam a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar também possíveis conexões com o Executivo. A prefeita Lucimar disse que não interferirá e que a Câmara tem autonomia. Entretanto, analistas locais acreditam que o caso pode influenciar as eleições municipais de 2024, desgastando partidos da base aliada.
Principais consequências possíveis:
- Ação civil pública por improbidade administrativa;
- Ação penal individual contra os envolvidos;
- Instalação de CPI na Câmara Municipal;
- Processo de cassação de mandato por quebra de decoro;
- Impacto nas eleições municipais de 2024.
Transparência e Medidas Futuras
Em resposta às denúncias, a presidência da Câmara anunciou a criação de um Portal da Transparência, com previsão de implantação em até 60 dias. Nele, deverão ser publicados todos os contratos, licitações, diárias, salários e atas das sessões. A medida é vista com cautela por ativistas: "Já prometeram isso antes", criticou um membro do Observatório Social de Paracambi (OSPar), organização que monitora gastos públicos.
A sociedade civil, por sua vez, propõe a transmissão ao vivo de todas as sessões plenárias pelo YouTube, a criação de uma ouvidoria externa independente e a realização de uma auditoria independente nos contratos dos últimos quatro anos. Algumas dessas propostas devem ser levadas à próxima sessão da Câmara, marcada para o início de junho.
Perguntas Frequentes
O que motivou as denúncias?
Documentos que indicam superfaturamento, diárias irregulares e suspeitas de funcionários fantasmas na Câmara Municipal.
Quem está investigando?
O MPRJ, com apoio da Polícia Civil. O inquérito corre em sigilo.
Como denunciar irregularidades de forma anônima?
Pelo site do MPRJ (www.mprj.mp.br), pelo Disque-Denúncia (181) ou pela Ouvidoria da Câmara quando for implementada.
A CPI pode ser instalada sem o apoio do Executivo?
Sim. Basta a assinatura de um terço dos vereadores (5 dos 11). A prefeita já declarou que não vai interferir.
Qual o prazo para a investigação do MPRJ?
Não há prazo legal fixo, mas estima-se que o inquérito civil leve de 3 a 6 meses, podendo ser prorrogado.
O escândalo pode afetar as eleições de 2024?
Especialistas locais acreditam que sim, especialmente se houver indiciamentos de candidatos à reeleição.